Trata-se de uma ação territorial em espaço público, que visa a integração e o protagonismo dos diversos atores sociais por meio das linguagens artísticas e/ou culturais com dia e hora marcados: semanalmente ocorre a ocupação de uma praça pública. Chamamos essa ação de ocupação denominada “Bem loco na praça”. A ação acontece todas as sextas-feiras, a partir das 14 horas numa praça pública da região de Ermelino Matarazzo (zona leste de São Paulo). Neste contexto participam a população de modo geral, artistas locais, coletivos culturais, equipamentos de saúde. A ideia inicial é ocupar... Ocupar a praça, a mente, o coração, a vida... Sem placas, sem rótulos, sem diagnósticos. Os encontros possibilitam novos afetos, novos lugares... A praça é nosso ponto de encontro.
Pessoal de Campinas traz importante reflexão: Psiquiatrias Reformadas ou Reforma Psiquiátrica? A Desinstitucionalização dos fluxos de cuidado à crise a partir do Hospital Psiquiátrico
As inquietações aqui presentes decorrem das experiências, práticas, encontros e desencontros vividos na cotidianidade do trabalho de um serviço que oferta uma internação que não tem como objetivo apenas a remissão dos sintomas e que se dá de forma compartilhada com a Rede de Saúde Mental SUS/Campinas. A disponibilidade diária para o cuidado à crise, a construção dos casos clínicos, a resistência para que a arte e a produção de vida ocupasse este espaço, a articulação do tratamento em rede, a alta taxa de permanência, a demora em realizar as altas por questões institucionais e burocráticas, os casos com demandas sociais, e que não estavam de fato em crise, foram deixando marcas e a compreensão de que não é apenas a criação de novos serviços, o trabalho em equipe multidisciplinar, o derrubar os muros físicos do manicômio e a humanização do hospital psiquiátrico que garantem a desinstitucionalização da loucura. Foi no trabalho em ato, vivo, que a compreensão de que é “de dentro para fora” que o desmonte do hospital psiquiátrico se dá foi tomando corpo. A construção e o empoderamento do processo de trabalho nesse árido equipamento possibilitaram a consistência teórica e conceitual, ético-política e ideológica e técnico-assistencial acerca do que é a internação e, também, a compreensão de que o cuidado à crise deve se dar no território. Assim, o processo de desinstitucionalização dos cronificados fluxos de cuidado à crise, pode-se se realizar por meio das transformações institucionais, pelo uso de problemas e recursos internos para construir, pedaço por pedaço, as veredas de um novo modelo de cuidado. A forma como o cuidado à crise se dá na rede de saúde mental, permite-nos analisar a sua amplitude e capacidade de resposta ao sofrimento psíquico, num sentido quantitativo e a capacidade política em termos de capacidade de desinstitucionalização. Se a rede não ofertar respostas aos casos graves e às situações de crises, enveredamos por um caminho no qual os serviços substitutivos acabam se tornando dispositivos de uma ciranda sem vida e impotente, girando sempre em torno do hospital psiquiátrico e, assim, justificando a sua existência prática e ideológica. Com as transformações do modelo de atenção em saúde mental, com forte tendência a desospitalização, tivemos aumento significativo em relação ao número de altas em hospitais psiquiátricos, no entanto, também cresceu o número das reinternações, tendo como efeito os “casos porta - giratória”. Ou seja, ainda que o tempo de internação de um usuário tenha diminuído, significativamente, chama a atenção o grande número de internações para o mesmo usuário. Temos então a rede substitutiva convivendo com os encaminhamentos para internação em hospital psiquiátrico sem, de fato, substituí-lo, produzindo um círculo vicioso que reafirma, o tempo todo, a necessidade de manutenção do grande hospital. Esse círculo vicioso produz um novo tipo de cronicidade na contemporaneidade, cronicidade que é alimentada pelo próprio sistema de Saúde Mental que sustenta uma rede de serviços fragmentada. Os novos crônicos, os “casos porta giratória”, produtos de psiquiatrias reformadas, passam a ser o nosso grande desafio. Não se trata de negarmos a necessidade da internação, enquanto recurso terapêutico, mas, de estabelecer os limites do serviço e da rede e, assim, delimitar suas responsabilidades. Compreendemos que o CAPS por si só, não é o substitutivo ao hospital psiquiátrico, tendo que dar conta de tudo, pois assim correríamos o risco dos serviços substitutivos tomar o lugar de controle do antigo hospital. O substitutivo é uma rede diversificada de serviços e dispositivos territoriais que deem conta da complexidade do sofrimento psíquico, potencializando os recursos existentes na comunidade e produzindo fluxos de tratamento singulares e não protocolar. Partindo de dados que afirmam que as redes de serviços de saúde mental, que ainda convivem com o hospital psiquiátrico, mantém vigente a cultura de encaminhamentos, o desafio que se coloca é apostar no Núcleo de Retaguarda, não mais como o Hospital Psiquiátrico fora do território e que tampona os buracos daquilo que não existe, ou não funciona na rede e sim no papel de observatório dessas disfunções da rede, colocando-se como parceiro na superação das disfunções e na transformação de um modelo. A questão que se coloca não é mais a de “melhorar” o hospital psiquiátrico, o avanço será o seu fechamento, transformando o modelo assistencial e oferecendo uma tecnologia de cuidado a crise orientada pelos pressupostos da Reforma Psiquiátrica e não de Psiquiatrias Reformadas.
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