quarta-feira, 27 de maio de 2015

Esta prática chegou como Relato e também foi reproduzida na nossa 1a Mostra

Labirinto das Sensações

Com a introdução da Vacina de HPV no calendário vacinal e tendo em vista a vulnerabilidade da população atendida no CAPSij Espaço Criativo, vislumbra a possibilidade de atrelar a administração da vacina na unidade a estratégias de potencialização das ações relacionadas a sexualidade, prevenção da gravidez e DST'S. Inicialmente, a equipe pensou em um Labirinto das Sensações onde seriam exploradas durante o percurso todas as sensações somáticas (visão, audição, paladar, tato e olfato). Foi agendada uma data para esta atividade e sua divulgação realizada por toda equipe com três semanas de antecedência. A estrutura física necessária para esta atividade foi uma sala aberta que se dividiu em 5 ambientes: Espaço 1: Crianças e adolescentes foram vendados e ficaram descalços para entrar no labirinto. Na entrada se deparavam com luvas enchidas com ar, que devam a sensação de ter várias mãos tocando seus corpos. No chão havia espaços com materiais macios, ásperos, grãos, líquidos, gelados e gelatinosos, onde proporcionava variadas sensações através do tato com os pés. No mesmo espaço havia cordões pendurados no teto, com essências dentro de aplicadores vaginais, trabalhando tato e olfato. No mesmo ambiente em uma parede lateral, existia um painel com inúmeras figuras abstratas, fotos do gênero feminino e masculino de variadas fases de idades, corpos seminus, casais ( heterossexual e homossexual), junto com um espelho. Nesse momento retira-se a venda do participante em frente do espelho e lá se realizava uma conversa sobre a sensação de fazer parte daquele meio enquanto indivíduo, pois sua imagem refletida no espelho se conjugava com as imagens do painel. Surgia então a oportunidade de vários questionamentos sobre preconceito, mitos e verdade sobre o corpo, as relações entre os gêneros e patologias. Espaço 2: Novamente vendados na transição entre o espaço um e dois, existia uma cortina confeccionadas por linhas e preservativos abertos, permitindo inicialmente a experiência do contato pelo toque e cheiro. Nesse ambiente o participante se sentava e com o auxílio de um técnico eram oferecidos diversos temperos aromáticos, ora suave ora agressivo, e também amostras de gustativas com diferentes gostos e texturas. E o tema abordado neste momento foi a impossibilidade de termos nossos prazeres atendidos, experimentamos ao longo da vida diversas sensações, às vezes mais agradáveis e outras nem tanto. Espaço 3: Já desvendados, no funda da sala foi montado um banheiro, dentro dele todos os elementos foram montados com materiais recicláveis. As paredes deste banheiro eram feitas com papel Kraft em formatos de azulejos e também foi deixada uma caneta, para que no momento de intimidade de cada participante eles tivessem a liberdade de “pixar” uma mensagem. Espaço 4: Para finalizar o percurso, colocava-se novamente a venda no participante e este era encaminhado para uma mesa com duas caixas: uma com próteses de genitálias e outra com preservativos. Vendado, ele era orientado a colocar a mão na caixa com as próteses femininas e masculinas e após este contato apenas com o toque, eram retiradas suas vendas, mutuamente o técnico realizava uma conversa questionando sobre o conhecimento do seu corpo, do corpo do outro, dos prazeres e seus medos. Neste momento era também realizada uma ação ativa de promoção e prevenção com a explicação e demonstração do uso correto do preservativo, DST'S, a campanha da vacina contra o HPV, reflexões sobre o evento e sensações sentidas. No final, novamente eram orientados a colocar a mão na segunda caixa, onde retiravam um embrulho com preservativo. Espaço 5: Sala disposta ao lado do labirinto, onde era realizado a vacinação por profissional habilitado da enfermagem, para crianças e adolescentes do sexo feminino que concordavam e que tinha a autorização de seus responsáveis. Em todo este processo os profissionais envolvidos contaram com a participação ativa tanto da equipe quanto dos usuários, seja na compra dos materiais, na elaboração, no preparo do labirinto e na finalização, permitindo assim, a experiência de inúmeras trocas de saberes, medos e sensações, sentidas por crianças e adolescentes de ambos sexos, com diferentes história de vida, cultura, religião e situações sociais. Durante a realização das atividades à equipe deparou-se com participantes que não conseguiram entrar no labirinto, outros que não terminaram todo o percurso por variadas limitações, como por exemplo, o estar vendado ou o contato com seu corpo. Apesar destas limitações citadas à cima, a equipe observa e identifica uma participação positiva, mobilizando os usuários que participaram em se apropriar da temática e maior conhecimento de seu corpo, possibilitando que este público tivesse acesso à educação em saúde, reflexões sobre cuidado, sobre sexualidade e respeito com seu corpo e o corpo do outro, se expressando seja pelas conversas realizadas durante o percurso de todos os espaços com tais falas: “Esse é macio, então é gostoso”, “ credo, isso é gosmento”, “sai fora é um pinto”, “esse deve estar doente, olha como está magro”, “eu sei aonde a mulher sente prazer”, “vou te ensinar a colocar camisinha”, entre outros. Como também, por meio do “pixar” o azulejo do banheiro, com escritas: “ eu sei quem escreveu a carta pra mim”, “Não existe nada pior do que a saudade”, seu nomes, desenhos, entre outros. Esperamos através desta experiência, divulgar a outros serviços, uma maneira alternativa de falarmos sobre sexualidade, doenças sexualmente transmissíveis, prevenção, cuidados e respeito com o corpo, tornando o sujeito ativo de todo o contexto, se permitindo conhecer e sentir seu corpo.


 

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